7 de dez de 2013

Entrevista com Alan Watts, abril de 73.

A entrevista que segue, intitulada "Formar um novo homem", foi retirada da revista Planeta - edição número 8, abril de 1973.

Precisamos de sentimentos novos, de novas regras, de conceitos diferentes para definir o que significa estar vivo, o que significa ser homem. Esta é a ideia básica da filosofia de Allan Watts, um dos grandes líderes espirituais norte-americanos na atualidade. Watts tem 58 anos e mora numa balsa, na baía de Sausalito, na Califórnia. Era pastor da Igreja anglicana, na Inglaterra. Abandonou o cargo, foi para o Japão e estudou o zen budismo. Agora se dedica à missão de unir o pensamento oriental ao ocidental. 

Imagem retirada da internet de "autor desconhecido".

Por Jacques Mousseau

"Cada cultura assemelha-se a um jogo. Há o jogo da girafa, o jogo do hipótamo, o jogo do canguru, sem falar nos diversos jogos humanos. Alguns desses jogos não servem. Suas regras estão em contradição flagrante, umas com as outras. Quando o jogo humano está a caminho do que denomino trajetória da colisão, ele ameaça destruir o planeta. Esse jogo não presta. Por isso necessitamos de sentimentos novos, de novas regras, novos conceitos para definir o que sugbufuca estar vivo, o que significa ser homem. Em outras palavras, devemos deixar de nos considerar na terra como estrangeiros num mundo estranho. Essa é a minha ideia fundamental."

Toda obra de Alan Watts está marcada pela preocupação de unir o pensamento ocidental ao oriental. Nos Estados Unidos, ele é considerado um dos líderes intelectuais da juventude, e não apenas dos hippies de São Francisco e Nova York, como também dos estudantes universitários em geral. Ele não fez nada, no entanto, para ocupar essa posição de liderança junto aos jovens revoltados ou inquietos. Há mais de trinta  anos, ele segue o mesmo caminho. Mas, subitamente, sua visão do mundo e do homem encontrou a interrogação surda que se levantava entre a juventude dos dois continentes.

Dezenas de estudantes costumam bater à porta da velha balsa onde ele mora na baía de Sausalito. Assistem a seus seminários de filosofia comparada. Publicam seus artigos nos jornais e revistas estudantis.

Alan Watts nasceu no dia 6 de janeiro de 1915, em Chislehurt, na Inglaterra. É doutor em filosofia e em teologia. Antes de emigrar para os Estados Unidos, Pouco antes da guerra, era pastor da Igreja anglicana. Após haver abandonado o cargo religioso, viveu vários anos no Japão, onde estudou o budismo zen. Depois da guerra, lecionou em diversas universidades americanas: Harvard, Cornell, Havaí. Milhões de ouvintes acompanham seus cursos pelo rádio. Fora isso, ele escreveu uns vinte livros sobre filosofia e religião.
Descobri o sentido da experiência vivida

Qual foi a razão profunda que o levou a estudar as filosofias e religiões orientais?

Interessei-me pela filosofia oriental quando descobri que não era uma filosofia no sentido ocidental da palavra. A filosofia do Ocidente é especulativa. Trata-se de uma construção de teorias sobre a natureza do ser e a natureza do conhecimento, sendo que sua base é puramente verbal. A filosofia oriental, ao contrário, é empírica. Ela supõe uma experiência. Seu objetivo fundamental é modificar de tal forma a consciência que o indivíduo possa ter uma experiência de si mesmo diferente da que denominamos normal. A experiência normal de nós mesmos é determinada pela cultura em que vivemos

Por que você acha que a maneira de pensar e agir do Ocidente representa uma ameaça para o planeta?

O ocidental se refere à sua atividade no universo em termos de agressão e de conquista. Ele sobe ao alto de uma montanha e diz que a conquistou . Ele cura uma doença e diz que a venceu. Ora, o contrário é o certo: para curar uma doença, devemos aprender a cooperar com ela e não dominá-la pela violência. Precisamos aprender  a amar essas bactérias que necessitamos quando não são nocivas. Nós não compreendemos esse aspecto da realidade. Por isso, em vez de civilizar o mundo, estamos simplesmente pervertendo-o tecnicamente.

E você pensa ter encontrado na filosofia oriental uma atitude superior?

Sim, acredito

Mas por que os orientais não fazem uso dela

Simplesmente porque nossa civilização os deixou inteiramente perturbados. O país do oriente que conheço melhor é o Japão. É um lugar curioso: nos restaurantes, os turistas americanos comem a comida japonesa enquanto os japoneses comem a comida ocidental. Os americanos adoram se adaptar ao ambiente japonês e os japoneses idealizam tudo que vem da América. Os homens de negócio no Japão se vestem exatamente como os diretores da IBM: roupa preta. gravata preta. Eles esquecem que são os inventores da única roupa masculina confortável: o quimono.

Nada mais agradável e cômodo do que vestir um quimono. E, no entanto, um japonês me confessou um dia que por nada desse mundo ele sairia nas ruas de Tóquio  com um quimono. Por quê? Porque não é possível correr atrás de um ônibus vestido de quimono. E  isso é verdade. De quimono a gente é obrigado a arrastar tranquilamente os pés, o que é excelente tanto para o corpo quanto para a mente. Se não dependêssemos tanto do tempo, dos horários, teríamos uma cultura de ritmo mais lento que entraria menos em conflito com as outras culturas, e que seria menos imperialista, menos dominadora.

Na sua opinião, o que foi que "desandou" na cultura ocidental?

Bem, o problema é muito complicado. Dar para todos alimento, conforto e assistência médica é fundamentalmente uma questão de tecnologia Até a metade do século 19, o Oriente e o o Ocidente estavam mais ou menos nas mesmas condições: não possuíam esgotos nem assistência social. Em compensação, tinham leis e instituições igualmente bárbaras. Foi a partir da metade do século 19, graças à revolução industrial, que descobrimos ser possível dar uma oportunidade igual a todos.

O Oriente, contudo, por uma série de razões muito complexas, não fez essa descoberta essencial. Mas uma coisa é certa: se essa descoberta ocorreu primeiro no Ocidente, não foi devido ao cristianismo nem às nossas instituições.

O Ocidente é o produto de sua geografia


Sua afirmação é bastante singular! as pessoas admitem, em geral, que nosso progresso e democratização são fruto do pensamento cristão.


O cristianismo não tem nada a ver com isso. Antes do século 19, era costume cantar nas igrejas um hino que dizia: "Deus criou todas as coisas belas e harmoniosas; ele fez as criaturas grandes ou pequenas, o rico em seu castelo e o pobre em sua porta; ele criou o rico e os humildes segundo uma ordem prevista". O cristianismo sempre considerou a pobreza como uma coisa natural, da mesma forma que o Sol ou a Lua. A ideia de modificar essa situação só apareceu no século passado com a revolução industrial, exatamente no momento em que era possível remediá-la. Foi somente então que as pessoas começaram a imaginar um mundo em que não haveria mais pobreza.


A dificuldade que surgiu posteriormente não é de ordem técnica, mas psicológica. Ela decorre das pessoas não compreenderem que o dinheiro é uma ficção. A ideia de que o ouro é uma riqueza é uma superstição tão arcaica quanto a sangria. O dinheiro nada mais é do que um instrumento da contabilidade. Numa sociedade ideal, os países deveriam ser uma espécie de banco que fornecesse à população um crédito suficiente para permitir a circulação da produção. Caso contrário, a automação criará um numero cada vez maior de desempregados.


Afinal, o que mais podemos esperar das maquinas senão que elas trabalhem em nosso lugar e ganhem nosso dinheiro enquanto ficamos tomando sol, fumando e bebendo? Mas se a comunidade não distribuir as riquezas ao homem que descansa enquanto a maquina trabalha por ele, o produtor não poderá dar a vazão a seus produtos. As maquinas são os escravos de todos, elas não sentem nada e não se queixam de nada.


Por que motivo, a seu ver, o Ocidente inventou e fez a revolução industrial?


O móvel da revolução foi a geografia. Observe o mapa da Europa: trata-se de um sistema gigantesco de portos. O Mediterrâneo, por sinal, nada mais é do que um imenso porto. Os europeus são navegadores e por isso mesmo reuniram os diversos conhecimentos que encontraram em toda parte. Foi a síntese dessa variedade de conhecimentos que deu origem à tecnologia. Os chineses possuíam uma quantidade de conhecimentos tecnológicos que jamais utilizaram. Descobriram a pólvora, mas, em vez de empregá-la para a guerra, fizeram fogos de artifício.


Num certo sentido, poderíamos dizer que esse fato prova que eles eram mais civilizados do que nós. Estou firmemente convencido de que foi o talento da navegação dos europeus que lhes permitiu realizar a revolução industrial no século passado.


O homem ocidental está separado do universo


A verdade é que o Ocidente teve um dia a audácia de assumir a liderança do mundo e a direção da natureza.


Exatamente. Esse foi o grande salto psicológico. Na Ásia, as pessoas acreditam que qualquer intervenção na ordem da natureza, por mais proveitosa que seja no momento, pode produzir consequências ameaçadoras a longo prazo. Curar as doenças é excelente, mas o que fazer se a terra se tornar superpopulosa? Foi por isso que o Oriente adotou uma atitude diferente: seguir o curso natural das coisas sem tentar modificá-lo. Atualmente, na Índia e na China, os governantes procuram copiar o Ocidente. Esses dois países desejam se industrializar e se modernizar a qualquer custo.


Imagem retirada da internet de "autor desconhecido".

A imagem política de Deus


De onde surgiu então essa mentalidade? Seria necessária por acaso ao conhecimento objetivo?


A atitude geral do ocidental em relação ao universo tem por modelo uma estrutura política. Deus é o senhor absoluto, da mesma forma que nas sociedades monárquicas o rei é o grande tirano diante de quem todos se inclinam. Até mesmo o hierarquia da Igreja assemelha-se a uma corte real: o padre vira as costas para a parede com receio de ser atacado; está cercado de guardas. enquanto a assistência permanece ajoelhada ou com a cabeça abaixada; nessa posição ela não pode atacar. Isso significa que Deus tem medo.


Essa imagem política de Deus é uma das doenças que política de Deus e uma das doenças de que sofre a cultura ocidental. Suponha que um homem tenha uma experiência mística e perceba de repente que goza de uma união perfeita com Deus. Se esse homem disser que ele é Deus, ninguém vai aceitar: como alguém pode pretender ser Deus se Deus é o senhor do universo? Como  seria possível reconhecer um homem como senhor do universo inteiro, inclinar-se diante dele e adorá-lo?


Pois bem, na Índia, quando alguém descobre que é Deus e conta isso aos outros, estes o felicitam por ter feito finalmente essa descoberta! Para os orientais, Deus não é um soberano dominador, nem um dirigente político. Pelo contrário, é o dançarino, o ator do mundo, o grande comediante que representa todos os papéis. Do momento em que a imagem de Deus na cultura indiana é diferente da nossa, o indivíduo pode dizer que é Deus.


Por outro lado, nós temos uma consciência muito viva da morte de Deus. Como você explica isso?


Creio que se trata antes da morte de uma certa ideia de Deus, do Deus cristão que é um Deus político à semelhança dos antigos soberanos. Pessoalmente, minha descoberta importante foi a da ideia oriental de Deus. A vida me fascina, gostaria de penetrar o mistério da minha existência, conhecer as origens de minha consciência. Quanto mais estou convencido de que sou Deus - mas não o Deus Senhor - tanto mais essa descoberta parece decorrer inteiramente do abandono das imagens tradicionais de Deus. A verdadeira fé é uma abertura a qualquer tipo de verdade. Enquanto me parece ser falta de fé prender-se a uma imagem de um Deus que protege o universo, que o sustenta. Não é possível segurar na água para nadar; devemos ter confiança nela. da mesma forma, as imagens mentais de Deus são mais perigosas do que os ídolos de pedra ou de madeira. O que está morto são nossas imagens antigas, nossos símbolos e ideias de Deus. Quando nos libertarmos dessas crenças, quando tivermos lavado nossas vidraças mentais, poderemos ver finalmente o verdadeiro céu e o verdadeiro sol. Do momento em que aceitarmos a ideia de que não existe abrigo para se proteger, nem segurança, nem certeza, nem conta em banco, nem seguro de vida para iludir o medo, toda a energia que foi mobilizada para nossa proteção torna-se imediatamente disponível para atividades construtivas.


Entre o homem-pioneiro e o homem-formiga


Nossa cultura criou uma situação embaraçosa. Tanto ela acentua o individualismo, quanto faz o indivíduo se sentir esmagado diante das formas coletivas de vida. Resultado: sofremos para nos adaptar à civilização que nós mesmos construímos.


Há uma razão para isso: o erro está em nossa ideia do indivídua. Debatemo-nos entre duas noções contraditórias. Por um lado o homem que enfrenta sozinho os elementos: é o pioneiro, o colonizador do Oeste americana. Por outro lado, o homem a serviço do Estado e da coletividade: é o homem-formiga. Nos dois casos, ignoramos o fato de que o indivíduo e o mundo pertencem a um mesmo processo. Os dedos da mão podem mexer isoladamente, mas unicamente porque fazem parte o organismo.


Assim também, você e eu somos duas personalidades completamente diferentes e únicas, e quanto mais fazemos parte do conjunto, mais originais nós somos. Pertencemos ao mesmo organismo e, quanto mais entendemos isso, tanto mais nos tornamos únicos, diferentes, individuais. 


As ciências humanos nos ajudam a resolver nossos conflitos, mas você pensa que o psicólogos, os psicanalistas e os sociólogos estão devidamente preparados para orientar o homem e a sociedade?


Não. Embora desejasse que estivessem. A psicanálise se tornou uma religião aceita, ortodoxa. Tem tudo da outra: as sucessões apostólicas, os cerimoniais, os heréticos e as heresias. Jung está para Freud como Arius estava para a tradição cristã. Alguns autoes procuraram dados estatísticos para provar a eficiência da psicanálise. Segundo os dados existentes, a cura de uma neurose pela análise leva mais tempo do que se ela seguisse seu curso natural. A cura leva três anos sem análise e cinco com análise. Fora isso, existe o perigo, sobretudo nos Estados Unidos, da psicanálise se tornar uma espécie de organização fascista. Os psiquiatras conservam o poder.


Ronald Laing, por exemplo, um brilhante psicólogo inglês, acredita que a esquizofrenia seja uma reação uma reação contra nossa cultura alucinada. Ele ilustra seu pensamento com a seguinte imagem: um bando de pássaros cruza o céu; em determinado momento, um deles abandona o grupo e toma uma outra direção. Surge então a pergunta: quem está na direção certa? E, de fato, ninguém pode saber. Tanto pode ser o grupo quanto o pássaro isolado. Da mesma maneira, Laing acredita que o esquizofrênico é o indivíduo que, muito simplesmente, não está em condições de suportar a demência de nossa cultura e que atravessa crises extremamente dolorosas porque não conseguiu integrar-se a ela.


Geralmente, quando um esquizofrênico entra num hospital psiquiátrico, ele é considerado doente e os médicos e enfermeiros que tratam dele procuram convencê-lo de sua doença. No entanto, no fundo de sua consciência, ele sabe perfeitamente que não está doente, que está a caminho da cura, exatamente como alguém que está com febre. Porque a febre tampouco é uma doença, mas um processo da cura. A sugestão de Laing é substituir os hospitais psiquiátricos por instituições de um gênero inteiramente diferente, onde os médicos e enfermeiras diriam ao paciente: "Seja bem vindo em nosso meio. Você está atravessando no momento uma crise dolorosa, mas isso vai passar e você vai gozar de uma saúde melhor do que antes. E nós estamos aque para ajudá-lo ".  Ronald Leing dirige atualmente um pequeno hospital particular desse gênero em Londres. Mas suas relações com os outros psiquiatras são negativas. Hoje em dia uma pessoa pode ser herege em religião, porque ninguém dá muita importância às heresias religiosas, mas em psiquiatria isso é grave e perigoso.


Uma única cultura no futuro


A civilização ocidental possui a vocação da hegemonia. Ela se tornou tão poderosa que muito em breve só haveremos de ter, provavelmente, uma única cultura. O que acha? Trata-se de um risco ou de uma grande oportunidade planetária? 


Um pensador profetizou, há alguns anos atrás, que em 1968 o mundo seria uma única cidade. Ele quase acertou. Os atuais meios de comunicação aboliram as distâncias e as cidades mais separadas no mapa estão cada vez mais próximas. Londres, Paris, São Paulo, Nova York, Tóqui e Hong Kong possuem cada uma delas seu hotel Hilton. As línguas, inclusive, se misturam cada vez mais, e nasce assim uma cultura uniformizada da tecnologia industrial.


Quanto ao risco que apresenta uma semelhante civilização, trata-se de um assunto que merece nossa reflexão... Há alguns anos atrás, um grupo de geneticistas da Universidade da Califórnia levantou uma questão paralela: se conseguirmos fabricar indivíduos em série como fabricamos aviões, teremos encontrado a melhor solução para as nossas necessidades, isto é, teremos o indivíduo mais adaptado segundo o modelo adotado. Mas adaptado a quê? Pioneiros para desbravar o Oeste ou técnico capaz de se adaptar ao ambiente moderno das grandes cidades industriais? A verdade é que, antes de mais nada, nós ignoramos totalmente o tipo de indivíduo de que temos necessidade, e isso porque as condições de vida se transformar rápida e bruscamente. Daí a necessidade de conservar a variedade das culturas existentes. 


O turista procura uma paisagem diferente. Ele deseja encontrar, quando viaja, panoramas desconhecidos e muta cor local. Os japoneses conservam algumas reservas de cor local em intenção dos turistas, enquanto eles próprios sonham unicamente com a vida americana. Mas os turistas não se deixam mais iludir, nem pelas gueixas nem pelas casas de chã. Eles sabem que assistem a um espetáculo, a uma mera encenação, e que a verdadeira tradição está ausente dessas manifestações.  Tudo que sobrou foi um cenário conservado para o uso dos turistas. Aliás, o turismo é um bom exemplo desses mecanismos de autocentralização. Ele perdeu a sua razão de ser.


É bem provável, no entanto, que esta padronização generalizada produza um renascimento da vida espiritual. E talvez esse desejo encontre um terreno propício no Ocidente - que já está vacinado contra os entusiasmos da modernização.


Sim, daqui a alguns anos, imensas autoestradas percorrerão a Ásia de um ponto ao outro. Os turistas viajarão de Ford, comerão hot-dogs e dormirão em motéis. Mas na mesma época, nos países do Ocidente, surgirão mosteiros, monges, ashrams... Os hippies, por sinal, são os anunciadores deste movimento.


O advento de uma nova raça


Você escreveu um livro intitulado O Filósofo na Cozinha. Será que você pretende reabilitar a cozinha, após ter reabilitado o amor?


Sim. Toda relação carnal deve ser reabilitada porque é o caminho para a relação com o universo inteiro. Os chineses são verdadeiros materialistas há centenas de anos: ama a terra e são maravilhosos cozinheiros. O fogão onde cozinha, os alimentos é também o altar onde se realiza a transformação de uma forma de vida numa outra. O filósofo moderno Lin Yutang dizia que um peixe mal preparado de sua vida inutilmente. Se formos obrigados a matar para viver, devemos fazê-lo com um imenso respeito. Nos países do Ocidente, as pessoas se alimentar na correria para satisfazer as necessidades fundamentais de hidrocarbonatos, proteínas e vitaminas - mas ninguém aprecia mais a comida.


A juventude atual descobriu que vale muito mais uma experiência qualitativa individual do que uma conhecimento quantitativo geral. Você está de acordo?


Sim. Está próximo o dia em que as pessoas serão pagas para não trabalhar. O mercado de trabalho está saturado. Os estudantes, por sua vez, compreenderam que é pura perda de tempo acumular conhecimentos gerais. Eles desejam viver a complexidade da experiência própria. Isso explica a atração que sentem pelos alucinógenos, pelas religiões orientais, pelas técnicas de meditação - por tudo enfim que abra novos campos de percepção e de consciência. Sem esquecer a necessidade de praticar a fundo a experiência sexual.


Na música são os grupos como os Beatles que sucederam a Bach, Mozart e Stravinsky. A poesia foi reencontrada por Bob Dylan, por Donovan: a poesia que estava desenganada e que possui agora milhões de ouvintes. Antigos instrumentos, como o alaúde, voltaram a ser atuais. Vi recentemente algumas guitarras decoradas de marfim fabricadas pelos hippies, como havia na Renascença italiana. É isso, aliás, o que nos fascina na arte da juventude atual: a volta ao requinte do verdadeiro artesanato. Os jovens redescobriram a cor, a exuberância, a precisão e o sentido do detalhe, como na época das miniaturas persas  e celtas, dos esmaltes de Limonges e dos vitrais de Chartres. 


Ultima pergunta: você se considera um filósofo, um homem religioso ou um guru ocidental?


Sou filósofo, mas um filósofo que não constrói um sistema intelectual, um filósofo que vive sua filosofia. Não sou pregador: não desejo converter ninguém. Não filosofo pela glória da filosofia, mas porque o mundo me fascina e desejo comunicar essa emoção aos outros.