9 de mar de 2014

Sim, Anarquia é Caos e Desordem!

Ordem é uma palavra que contém em seu significado, tanto a ideia de organização quanto de poder, hierarquia (ordenar, mandar). Anarquia costuma ser usada para designar, além de "negação do poder" (no seu sentido político), ordinariamente, falta de organização (falta de ordem, em um dos sentidos desta palavra).

Anarquia não é desordem, num sentido estrito do termo de "falta de organização", mas num sentido amplo, de negação da organização/poder (ou organização pelo poder, pela hierarquia, pelo uso de uma força coerciva). É a negação da ordem, sem a dissociar do poder - dissociação que seria desonesta já que, imagino, não é atoa que uma conota a outra.

Cabe uma melhor investigação para entender por que anarquia é muitas vezes entendida como desordem, no sentido estrito, falta de ordem. Se isto ocorre desde a criação do termo, ou se foi uma confusão causada posteriormente e, se sim, se intencional ou não. Se surgiu no início, o que revela intencionalidade na associação, se confusão gerada com fim de desvirtuar as ideias difundidas por anarquistas, ou algo que aconteceu inconscientemente, por descuido, creio que o fator que levou a tal confusão seja o mesmo: a cultura (moral/linguagem/compreensão de mundo).


Uma cultura que sustenta uma palavra (ordem) que tem eu seu cerne tanto a ideia de organização quanto a de poder, só poder pertencer a um povo que confunde, mistura, as duas coisas. Uma cultura violenta, que não preza pela harmonia, mas pela Ordem, no seu sentido mais duro: disciplina.

Se a associação entre anarquia e "falta de organização" ocorreu por descuido, sem intenção, é porque a cultura, como disse, nos levou a esta conclusão equivocada. Se não, se foram associadas por ma fé de oradores ideólogos do poder, a cultura teve a responsabilidade de sustentar a conclusão porque já continha, potencialmente, a ideia de que não é possível uma organização sem poder, sem ordem, sem que alguém ordene. Estava alí, nos inconscientes, ou: as consciências estavam fechadas para a possibilidade de conceber uma sociedade organizada sem governo, sem líder(es) - por lhes faltar bases linguísticas para isto - taxando, posteriormente, a anarquia como caos. Designação que, no sentido depreciativo que foi empregada, foi também uma injustiça com ambos os termos.

Caos, do grego, romper, separar, rachar, é também uma das forças geradoras do "universo" (no grego cosmos: harmonia, termo que gosto bastante, ou ordem, termo latino que não sei se sustenta bem a tradução - já que desconheço se a língua grega também carrega esta ideia de organização/poder) na mitologia grega. Neste sentido o caos é uma parte indispensável para a organização dos seres, já que o afastar e romper é necessário para o movimento do universo, das coisas. Curiosamente parece ser isto que a ordem combate, o movimento, tentando tornar o mundo estático em dogmas, impossibilitando o diálogo, a dialética, o movimento que surge dos encontros de partes, querendo que tudo seja uma coisa só, totalizar, anular a divergência (rompimento, afastamento) e a diversidade - onde há mais de um, há movimento... e o "afastar" é parte imprescindível dele.

Não quero com este texto provar que a anarquia é "o bem", a harmonia - seria desonesto me apoiar em aspectos etimológicos para isto, já que as palavras fluem, perdem e ganham novos sentidos - embora eu não creio em uma organização saudável onde o poder, a hierarquia, esteja presente. A pretensão aqui é apenas apontar uma possível  resposta para aquilo que entendo como confusão entre anarquia e bagunça, desordem, desorganização sugerir uma outra possibilidade de entendimento de caos. Com isto, sugerir (ou discutir) outra base para a compreensão dos termos, resignificando-os (revalorizando).