17 de mai de 2013

O Eu e O Outro (Parte 1) - Alan Watts

Tradução: Lucas Teixeira

Este texto foi retirado do blog lucasteixeira.com e é parte (a primeira de três) da palestra "Self and Ohter" de Alan Watts


O assunto desse seminário é “O Eu e o Outro”, sendo uma exploração do assunto que mais me interessa, que é o problema da identidade pessoal, a relação do homem com o universo, e todos os tópicos que surgem daí. Pra nossa cultura nesse período histórico, esse é um problema urgentíssimo, devido ao nosso poder tecnológico. Na história conhecida, ninguém teve tanta capacidade de alterar o universo quanto o povo dos Estados Unidos da América. E ninguém tentou fazê-lo de uma maneira tão agressiva.

Eu acho que os dois símbolos da nossa atual cultura tecnológica são o foguete e a escavadeira. O foguete como um símbolo muito, muito fálico de compensação pro macho sexualmente inadequado. E a escavadeira derruba brutalmente montanhas e florestas e altera o relevo de toda uma região. Esses são dois símbolos de aspectos negativos da nossa tecnologia. Eu não vou defender a posição de que tecnologia é um erro. Eu acho que pode haver um novo tipo de tecnologia, partindo de uma nova perspectiva. Mas o problema é que grande parte do nosso poder é exercido por homens que eu chamo de “pessoas duas-horas”.

Talvez vocês tenham lido um artigo que escrevi pra revista Playboy, “The Circle of Sex”; ele sugere que existam pelo menos doze tipos sexuais em vez de apenas dois. E que os homens que estão na posição das duas horas no relógio são homens ambisexuais, como Julius Caesar, pois ele era um homem ambisexual, e fazia amor igualmente tanto com as esposas de seus amigos quanto com seus oficiais mais bonitos. E ele não tinha nenhum sentimento de culpa por isso. Mas os homens desse tipo da nossa cultura atual têm um terrível sentimento de culpa de que possam ser homossexuais, morrem de medo de sê-lo, e então têm que supercompensar sua masculinidade. Aí eles viram o policial, o sargento da marinha, o capanga, um cara bem machão que nunca consegue estabelecer um relacionamento com uma mulher; elas são só “damas” na cabeça dele. Mas, assim como um piloto da aeronáutica risca uma marquinha em seu avião cada vez que derruba um inimigo, cada vez que esse cara traça uma dama ele marca um ponto, porque isso garante que ele é um homem, afinal de contas. E ele é um grande estorvo. O problema é que nossa cultura não permite que ele reconheça e aceite sua ambisexualidade. E então ele se torna um problema.

Mas essa forma de lidar com o mundo está se tornando muito arriscada. Ele surge porque esse tremendo poder tecnológico gerou uma cultura com uma percepção de personalidade que é francamente uma alucinação. E nós herdamos essa percepção de personalidade de uma longíssima tradição de ideias judaicas, cristãs e gregas que fizeram com que o homem sinta que o universo natural – o mundo físico, em outras palavras – é algo fora dele mesmo. Vocês podem pensar que isso é muito estranho, porque sempre assumimos que nós somos nossos próprios corpos, ou que somos pelo menos algo dentro de nossos corpos, como uma alma. E que, naturalmente, todas as coisas de fora não são parte de nós. Mas isso é, como disse várias e várias vezes, uma alucinação. Pensem comigo; aqui estamos nós, no meio de Nova York. E vocês sabem o que acontece quando algo dá errado em Nova York. Quando o metrô entra em greve, ou quando acaba a luz, ou quando o esgoto transborda, sua vida corre perigo. Porque vocês não são constituídos só pelo sangue em suas veias e pelas redes de comunicação de seus sistemas nervosos. O sistema de comunicações dessa cidade é uma extensão da sua corrente sanguínea, do seu aparelho digestivo e do seu sistema nervoso.

Em outras palavras, vocês sabem muito bem que todas as noites rios de caminhões afluem a essa cidade, carregando comida. Parece que tem até um cano gigante subterrâneo que traz o leite. Vocês consomem um milhão e meio de quilos de peixe por semana. Vocês também têm que ter uma porta de saída pra tudo isso. O esgoto é bem complicado. O sistema de distribuição de água e todos os seus canos, os sistemas telefônicos, os sistemas de energia, os aparelhos de condicionamento de ar, o fluxo do tráfego. Todos esses processos são essencialmente extensões de seus próprios tubulamentos internos. Dessa maneira, vocês têm que estar cientes, cada vez mais, de que a cidade é uma extensão corporal de cada pessoa que vive nela. E obviamente não só a cidade, porque a cidade depende de incontáveis hectares rurais onde plantas crescem e criam gado, de lagos e fontes de água subterrâneas, da constituição da atmosfera, e finalmente da localização da Terra em sua localização propícia perto do sol, onde temos nosso sistema básico de aquecimento funcionando.

E tudo isso não é um mundo no qual vocês aterrissaram, vindos de algum outro lugar. É um sistema complexo de relações, do qual vocês cresceram da mesmíssima maneira que uma fruta cresce em uma árvore, ou uma flor em um botão. Assim como esses frutos aqui são sintomáticas da planta, e conseguimos identificar a planta ao olhar pros frutos – vejam só essas laranjinhas – sabemos que essa é uma laranjeira. Da mesma maneira, vocês todos estão crescendo nesse mundo, e por isso sabemos que esse mundo é um sistema “humanífero” – e possui algum tipo de inteligência inata, assim como essa árvore, com suas raízes, tem a inteligência inata que faz surgir essas laranjas.

Então o cosmos em que vivemos é uma rede de comunicações. Vocês não precisam encará-lo numa perspectiva autoritária, isto é, que existe um deus pai que faz tudo funcionar, porque esse raciocínio na verdade não responde nada. É só adaptação uma explicação derivada de sistemas políticos do antigo Oriente Médio. Percebem? Os grandes sistemas políticos dos egípcios e dos caldeus, onde há uma figura de um enorme pai a cargo de tudo, se tornou o modelo da ideia do monoteísmo. E todos esses grandes reis, como Hammurabi e Amenhotep IV, estabeleceram sistemas legais que fizeram o homem pensar em um príncipe, um rei dos reis, um lorde dos lordes, nas palavras do Livro de Oração Comum*. É uma ideia política. E eu sempre me pergunto como cidadãos de uma república, que juram de pés juntos que essa é a melhor forma de governo, conseguem lidar com um conceito monárquico da natureza. Muito curioso. Sabe, é uma república, e vem escrito “Em Deus Confiamos” nas notas de dinheiro, e a maioria entende Deus como sendo o rei do universo. Muito estranho.

* O Livro de Oração Comum (Book of Common Prayer, em inglês) é o livro de preces da Igreja da 
Inglaterra. Passou por várias revisões durante os últimos séculos e contém a ordem a ser seguida nos serviços religiosos. (N.T. - fonte: Wikipedia)

Mas vocês não têm que pensar assim pra ter fé que o universo é algo mais que mera energia cega e estúpida. O que estamos começando a enxergar é que o universo total, consistindo de todas as suas galáxias, e não só dessa galáxia, é um organismo vivo. Como nós definimos isso? O que quer dizer um organismo vivo? Pra mim, é um sistema de intercomunicações de extrema complexidade. Assim como vocês. Se tentarmos definir o que somos, e olharmos pra dentro, scobrimos que, se tirarmos a pele e olharmos por baixo dela, somos um sistema complexo de tubos e fibras, elegantemente padronizados. Quando olhamos com um microscópio, dizemos: “Caramba, olha só pra isso. Não é maravilhoso?”. Já viram esses modelos de células que a Cia. Upjohn construiu? Eles são excelentes. E incidentalmente, vocês deveriam, se nunca o fizeram, visitar o hall Charles Darwin no Museu de História Natural de Nova York e ver os modelos de vidro dos menores microorganismos, chamados de radiolaria. Essas coisas estão circulando dentro de você, e são jóias incomparáveis.

Eu suponho que se olharmos pra nós mesmos desse ponto de vista microscópico, todas essas criaturas engraçadas que estão circulando dentro de nós e que não parecem com pessoas iriam parecer, se nos acostumássemos com elas. E elas teriam seus próprios problemas. Elas travam várias formas de batalhas entre si, e estabelecem colaborações e conspirações e tudo mais. Mas se tudo isso não estivesse ocorrendo, nosso corpo não estaria bem. Se esses vários corpúsculos e células no nosso sangue não estivessem lutando entre si, nós morreríamos. Essa ideia, de que a guerra em um nível de existência pode gerar paz e saúde em outro nível, é um pouco decepcionante.

Então temos um enorme sistema ecológico por dentro de cada um dos nossos corpos individuais. E o que temos que reconhecer é que esse sistema interconectado que constitui a beleza de um organismo humano, esse mesmo tipo de interconexão, está ocorrendo fora de nós. Você lembra das primeiras obras de ficção científica que foram publicadas na década de 20, por gente como Olaf Stapleton e outros pioneiros? Eles mostravam o homem do futuro com grandes cabeças que continham grandes cérebros. Esperávamos, em outras palavras, que a evolução da humanidade fosse uma evolução da mente e do cérebro, e daí os cérebros gigantes. Mas o que aconteceu foi que em vez de desenvolvermos a grandeza do cérebro, estamos desenvolvendo uma rede eletrônica onde nossos cérebros estão sendo, muito rapidamente, plugados em sistemas computacionais. Com isso, muitas coisas desagradáveis estão surgindo, e nós temos que atentar pra elas, porque o que tem acontecido cada vez mais é isso: não resta mais vida privada pra ninguém. A invasão da privacidade habitual pelo telefone, pelo ato de assistir a televisão, que no fim das contas é assistir a vida de outra pessoa acontecer, pelas pessoas que te assistem – todas as pessoas com sistemas de escuta, e os bisbilhoteiros, e as agência de crédito, e todo mundo sabendo tudo sobre vocês. Até na Califórnia, todas as casas são feitas com janelas em frente a outras janelas, e se você fecha as cortinas, todo mundo pensa que você é um arrogante. Assim como se alguém construir uma cerca na maioria das comunidades do centro-oeste, os vizinhos pensam: “Quem diabos você pensa que é, fazendo uma cerca pra manter todo mundo do lado de fora? Tá vendo, você não é democrático.”

Mas o motivo de tudo isso é que, bem, imaginem a situação quando todos os neurônios originais se ligaram, formando o sistema nervoso central. Eles devem ter dito: “Bem, estamos perdendo nossa privacidade”. Então essa é uma questão muito séria: de que forma vamos nos ligar às outras pessoas. Eu posso estar sendo antiquado, mas eu tenho a convicção de que a privacidade deve ser mantida tanto quanto for possível. O motivo é que seres humanos, na minha experiência, são uma combinação de dois mundos – o mundo privado e o mundo público – de forma que uma pessoa com uma personalidade muito forte, diferente e única não é uma pessoa isolada, mas uma pessoa extremamente consciente de sua identidade com o resto do universo. Assim como pessoas com personalidades indefiníveis, produzidas em massa, tendem a não estar conscientes disso. Elas tendem a ser o tipo de pessoa que é captada pelo sistema.

Então o que eu acho que podemos ter como meta pra nossa civilização e pra nossa cultura é um sistema em que estamos altamente conscientes de nossa interconexão e unidade com o sistema inteiro da natureza, e então não ter que passar por todo tipo de extremos pra encontrar essa união. Em outras palavras, olhe pro número de pessoas que ficam apavoradas com o silêncio, e que precisam de alguma coisa acontecendo o tempo inteiro, algum barulho passando pelos ouvidos. Elas agem assim por conta de um sentimento intenso de solidão. E aí quando ficam em silêncio, se sentem sozinhas e querem fugir disso. Como as pessoas que só querem saber de se reunir. Essas pessoas querem fugir de si mesmas. Mais gente gastando mais tempo fugindo de si. Não é uma desgraça? Que definição. Que sensação de Eu é essa se é algo de que se quer sempre fugir e esquecer. Digamos que você leia um conto de mistério. Por quê? Pra esquecer de si mesmo. Você se junta a uma religião. Por quê? Pra esquecer de si mesmo. Você se deixa absorver por um movimento político. Por quê? Pra esquecer de si mesmo. Deve ser um tipo bem miserável de Eu se você quer esquecê-lo dessa maneira.

Vamos falar de eremitas. Hoje em dia as pessoas acham que ser um eremita é bem pouco saudável. Muito antisocial, não contribui em nada pra o resto das pessoas – porque todo mundo está ocupado contribuindo feito louco, e algumas pessoas têm que se esquivar e sair do caminho. Mas deixem eu lhes contar o que os eremitas percebem. Se você se embrenhar em uma floresta longínqua e ficar bem quieto, vai entender que está conectado com tudo. Que cada insetinho que passa zumbindo por você é um mensageiro, e que esse insetinho está conectado com seres humanos de todos os lugares. Você consegue ouvir. Seus ouvidos se tornam incrivelmente sensíveis e você escuta sons a grandes distâncias. E só pela própria natureza de se isolar e ficar quieto, você se torna intensamente consciente da sua relação com todo o mais que há. Então se você quer mesmo descobrir o quão relacionado está, tente um pouco de solidão em algum lugar, e deixe que ela te mostre como tudo é interdependente da maneira que os budistas japoneses chamam de ‘jijimugi’. ‘Ji’ significa uma “coisa-evento”, então a palavra significa “entre coisa-evento e coisa-evento, não há obstáculo”. Tudo nesse mundo, cada evento, é como uma gota de orvalho numa teia de aranha multidimensional, e cada gota contém o reflexo de todas as outras gotas. Mas vejam, o eremita descobre isso através de sua solidão, e outros seres humanos também podem ter um pouco de solidão, até mesmo no meio de Nova York. Aliás, é mais fácil encontrar solidão em Nova York do que em Des Moines, Iowa.

Mas a questão é que um ser humano representa um certo tipo de desenvolvimento, onde a sensação máxima de sua unidade com o universo inteiro caminha de mãos dadas com o desenvolvimento máximo de sua personalidade como alguém único e diferente. Enquanto as pessoas que estão tentando desenvolver suas personalidades diretamente e fazendo um curso de como ganhar amigos e influenciar pessoas, ou em como se tornar uma pessoa bem-sucedida – todas essas pessoas revelam-se como se tivessem saído da mesma máquina de fazer biscoitos. Elas não têm personalidade alguma.

Assim, se torna o grande desafio do nosso tempo – para que essa tecnologia não desande, e pra que ela não seja uma guerra contra o cosmos – que adquiramos um novo sentido de identidade. Não é só um assunto teórico do qual nós devemos saber, como ecologistas, por exemplo, sabem sobre a identidade do organismo com seu ambiente, mas sim algo que devemos experimentar diretamente. E eu sinto que tudo isso não está além dos limites das possibilidades de grande parte das pessoas. Por uma simples razão. Deixe-me fazer uma analogia histórica. Centenas de anos atrás, parecia absolutamente incompreensível pra maioria das pessoas que a terra pudesse ser redonda, ou que planetas e estrelas ficassem suspensos no céu sem nenhum apoio, ou que mesmo a Terra pudesse estar flutuando livremente no espaço. A Terra está caindo no espaço, mas parece estável, e então era suposto pelas mitologias antigas que a Terra estivesse apoiada em uma tartaruga gigantesca. Ninguém pensava com muito cuidado no que a tartaruga estava apoiada, mas só que havia algum tipo de solidez nas coisas. Então, da mesma maneira, as estrelas supostamente estavam suspensas em esferas de cristal, e assim como as pessoas sabiam que a Terra é chata porque é só olhar pra ela e conferir, as pessoas olhavam pro céu e podiam ver as esferas de cristal. Claro que podíamos ver as esferas: enxergávamos as estrelas através delas. Aí quando os astrônomos lançaram dúvidas sobre a existência de esferas de cristal, todos se sentiram ameaçados de que as estrelas pudessem cair sobre nossas cabeças. Da mesma forma que quando eles falaram a respeito de uma Terra redonda, as pessoas sentiram medo de dar a volta pro outro lado e cair, ou se sentir estranhos de cabeça pra baixo, que o sangue subisse, todo tipo de coisa ruim. Mas desde então, nós nos acostumamos bastante bem à ideia de que as estrelas flutuam livremente no espaço em campos gravitacionais, de que você pode dar a volta na Terra sem cair, e todo mundo percebe e se sente confortável com isso.

Igualmente, quando Einstein propôs as teorias de relatividade, as pessoas disseram que não conseguiam entendê-la. Costumava ser significativo, num coquetel, ser apresentado a alguém que entendia Einstein. Hoje em dia todo jovem entende Einstein e sabe sobre o que se trata. Até mesmo no primeiro ano da faculdade, sabemos o que é a relatividade. E sabemos não só num nível intelectual; nós sentimos isso, assim como sentimos a redondeza do planeta, principalmente se viajamos bastante de avião. Então sinto que dessa mesma maneira, dentro de não sei quantos anos, mas em breve, vai se tornar senso comum que não somos aliens sendo confrontados com um mundo externo que não faz parte de nós, e quase toda pessoa inteligente vai sentir ser uma atividade única com o universo inteiro.

Entendem, a questão é que inumeráveis processos ocorrem dentro de nós dos quais não estamos conscientes. Traçamos uma linha muito, muito arbitrária entre o que fazemos voluntariamente e o que fazemos involuntariamente, e definimos todas essas coisas que fazemos involuntariamente como coisas que “acontecem” conosco, em vez de coisas que fazemos. Em outras palavras, nós não assumimos qualquer responsabilidade pelo fato de que nosso coração bate, ou que nossos ossos têm esse ou aquele formato. Podemos dizer pra uma garota bonita: “Nossa, você é linda”, e ela diria: “Você é igual a todos os outros, só pensa em corpos. Meu corpo me foi dado por meus pais, eu não sou responsável por ele, e eu gostaria que você me admirasse por mim mesma e não pelo meu chassis”. E aí eu diria pra ela: “Sua chauffeur miserável. Você renegou seu próprio ser e identificou-se como estando dissociada do próprio corpo”. Eu concordo que ela poderia se sentir assim se tivesse um corpo horrível e um rosto torto, mas se ela é um ser humano de boa aparência, e deveria aceitar esse fato e não se renegar. Mas isso sempre acontece.

Então vejam, se vocês se tornarem conscientes do fato de que são tudo dos seus próprios corpos, e que as batidas dos seus corações não é só algo que acontece com vocês, mas algo que você está fazendo, vocês se tornarão conscientes de que não estão só batendo o coração, mas que estão brilhando o sol. Por quê? Porque o processo da existência corporal e seus ritmos é um sistema de energia contínuo com o brilho do sol, assim com o Rio Leste, aqui, é um sistema contínuo de energia, e todas as suas ondas são atividades do Rio Leste inteiro, e que elas por sua vez são contínuas com o Oceano Atlântico, e que isso é tudo um único sistema de energia e finalmente o Oceano Atlântico se torna o Oceano Pacífico e o Oceano Índico, etc, e então todas as águas da Terra são um sistema de energia contínuo. Não é só que o Rio Leste é parte disso. Não dá pra riscar uma linha e dizer ‘Olha, aqui é onde o Rio Leste termina e o resto começa’, como se pode fazer com peças de um automóvel, quando se diz ‘Essa é definitivamente uma parte do gerador, aqui, e aqui é a vela de ignição’. 
Simplesmente não há esse tipo de isolamento entre os elementos da natureza.

Então seu corpo sabe que esse sistema de energia é um e contínuo com o sistema de energia inteiro. E se de alguma maneira eu sou meu próprio corpo, e eu bato meu coração, e que pra poder pensar eu faço crescer um cérebro, onde vamos riscar a linha entre o que nós pensamos e o poder de pensar? Será que pensamos com o cérebro assim como talhamos madeira com uma faca? Como um instrumento que a gente pega e usa? Eu não acho que nossos corpos são só instrumentais nesse sentido. Eles são algo que estamos fazendo, mas sobre o qual nós não pensamos, no sentido de que não temos que considerar a hora que levantamos de manhã como um ato voluntário de conectar todos os interruptores do nosso cérebro pra nos preparar pro dia; eles se conectam sozinhos. Mas esse funcionamento automático – ou como eu prefiro dizer, espontâneo – do cérebro é o que chamamos em japonês de “shizen”, que quer dizer “a espontaneidade da natureza”. Ele faz tudo isso, e o que nós executamos conscientemente é somente um pequeno fragmento da nossa atividade total, da qual calhamos de estar conscientes de uma maneira especial. Nós somos bem mais que isso. E não é só, digamos, que o sol é luz porque temos olhos e nervos ópticos que traduzem a energia do sol em uma experiência chamada “luz”. É também que esse fogo central do sol é algo que você está fazendo tanto quanto está gerando calor dentro do seu corpo.

Em outras palavras, vamos supor que esses cosmólogos e astrônomos estão certos em acreditar que esse universo começou com um big bang original, que atirou todas essas galáxias no espaço. Bem, vocês sabem com o que isso parece. Seria como pegar um pote de tinta e arremessar contra uma parede branca, e aí ela faria um grande splash. E vocês sabem qual é a natureza de um splash – no meio dele, é denso, e conforme nos distanciamos pra fora do splash, há todo tipo de curvinhas. Mas é um sistema contínuo de energia. Em outras palavras, o bang do início não pode ser separado das curvinhas no final. Então, supondo que houve uma explosão cósmica originou tudo com um grande BUM, nós sendados aqui somos as curvinhas do final, entendem? Cada um de nós é incrivelmente antigo. A energia que agora é manifestada como seu corpo é a mesma energia que estava lá no início. Se alguma coisa pode de fato ser velha, essa mão é tão velha quanto tudo mais que existe. Incrivelmente antiga. Quero dizer, a energia continua mudando as formas, fazendo todo tipo de coisas, mas ela é tudo o que há. É tudo um splash contínuo.

Agora, se você quer se definir como uma curvinha no final de tudo e dizer: “Isso é tudo que eu sou”, então você se torna um fantoche, dizendo: “Hm, eu caí de pára-quedas nesse sistema”. Feito um delinquente juvenil que sabe um pouco de Freud. “Eu não posso fazer nada, porque é tudo culpa da minha mãe. Ela era muito problemática e não me criou direito, e meu pai era um fracassado. Ele era alcóolatra e nunca prestou atenção em mim. Então eu me tornei um delinquente juvenil”. Então a assistente social diz: “É, receio que seja assim”, e daí algum jornalista pega o caso e diz: “Devemos punir os pais em vez das crianças”. Aí eles vão atrás dos pais e a mãe diz: “É, eu admito que sou problemática”, e o pai diz: “Eu sou mesmo alcóolatra, mas foram nossos pais que nos criaram errado, e aí tivemos todos esses conflitos”. Bem, esses não dá pra encontrar, porque já morreram. E aí vamos passando a culpa pra trás, e chegamos em uns tais Adão e Eva. E quando eles foram acusados de serem responsáveis, colocaram a culpa em uma cobra. E quando perguntaram pra cobra, ela jogou pra Deus, e Deus disse: “Eu renego você, pois não deixo minha mão direita saber o que minha mão esquerda fez”. E vocês sabem quem é a mão esquerda de Deus. A mão direita é Jesus Cristo, e a esquerda é o Diabo. Só que isso não pode ser admitido. Não durante a sua vida.

Mas isso é tudo, entende, resumindamente. Que assim que alguém se define como o fantoche, está dizendo: “Eu sou só um pobrezinho, e entrei de gaiato nesse mundo. Não pedi pra nascer. Meu pai e minha mãe me deram um corpo que é um sistema de tubos no qual eu de algum jeito aterrissei, e é tudo um labirinto do qual não consigo sair. Ele precisa de todos esses engenheiros e doutores e etc pra consertá-lo, educá-lo, dizer como continuar funcionando, e eu estou preso nisso. Coitado de mim”. Mas que besteira! Você não está preso nisso, isso é tudo você, e todo mundo está encolhido dizendo “Não sou responsável por esse universo, eu só aterrissei nele”. E a única função de todos os grandes gurus é tirar você dessa mentira, olhar pra você e dizer: “Não me venha com esse papo”. Mas ele tem que ter tato; tem que ser eficaz. Não dá pra falar assim com as pessoas. Não dá pra desiludir alguém com palavras. É curioso.

Tem todo um debate acontecendo, como vocês sabem, sobre a existência de Deus, e eles vão fazer uma matéria de capa sobre Deus na revista ‘Time’, e eles mandaram um repórter pra vir falar comigo – eles mandaram repórteres pra falar com todo tipo de teólogos e filósofos proeminentes. Eu disse: “tenho uma foto de Deus que você tem que botar na capa’. É uma incrível fotografia de uma estátua mexicana feita por Dick Borst. Um belo Deus-pai com uma coroa feito a do Papa. Mas aí eles disseram que pretendiam usar alguma coisa do Tintoretto. Essa foto é mesmo incrível. Sabe, uma verdadeira obra dos índios mexicanos. As pessoas mais simples pensam que é assim que Deus parece; um cara bem bonito. Enfim, eles vão fazer essa matéria de capa sobre Deus porque os teólogos estão discutindo um novo tipo de cristianismo que diz que não há Deus e Jesus Cristo é seu único filho. Mas o que acontece é que eles querem desesperadamente manter a igreja cristã porque vale a pena, é esse o trabalho do ministro, e embora eles se embaracem ao falar de Deus, eles querem mesmo é que a Bíblia e Jesus mantenham essa autoridade funcionando. Como eles vão fazer isso, eu não sei.

Mas de qualquer maneira, a questão é que Deus é o que ninguém admite ser, e o que todas as pessoas de fato são. Não procuramos por Deus lá fora, em algum lugar do céu; procuramos dentro de nós. Em outras palavras, por baixo da superfície da consciência que vocês têm e do papel individual que vocês exercem e com o qual se identificam, vocês são as engrenagens. Assim como vocês estão batendo seus corações, também estão brilhando o sol, e são responsáveis por isso. Mas nessa nossa cultura, vocês não podem admitir isso, porque se você disser por aí que é Deus, vão te pôr num manicômio. Porque a nossa ideia de Deus é baseada na política do Oriente Médio, e se você é Deus, então é você quem manda, quem governa – “Oh Senhor, nosso rei!”. E então se é você quem governa, você sabe todas as respostas. E aí quando alguém na nossa cultura diz “Eu sou Deus”, nós dizemos: “Bem, então porque você não transforma esse sapato em um coelho e prova que é Deus?”

Mas é claro que nas culturas orientais eles não vêem Deus como um autocrata. Deus é a energia fundamental do mundo que realiza tudo nesse mundo sem ter que pensar pra isso. Do mesmo jeito que você abre e fecha a mão sem conseguir explicar com palavras como o fez. Você só fez. Você diz ‘Eu consigo abrir e fechar a mão’. Mas como? Você não sabe. Mas isso só quer dizer que você não sabe explicar. Você de fato sabe, porque você fez. Então da mesma maneira, você sabe bater seu coração, porque você faz isso o tempo todo, mas não consegue explicar com palavras. Você sabe como brilhar o sol, porque você faz isso o tempo todo, mas não consegue explicar com palavras, a não ser que seja um físico, e mesmo assim você só estaria descobrindo – o que um físico faz é traduzir o que ele tem feito todo o tempo em um código chamado matemática. E aí ele diz que sabe como que se faz. O que ele quer dizer é que consegue colocar em código – é pra isso que o mundo acadêmico serve. É pra traduzir coisas que aconteceram em certos códigos chamados palavras, números, algoritmos, etc, e isso nos ajuda a consertar as coisas quando elas dão errado.

Então, eu não acredito que a descoberta da nossa inseparabilidade de todas as outras coisas só pode acontecer através dos métodos primitivos de meditação yoga, ou mesmo através de substâncias psicodélicas. Eu acredito que ela está ao alcance da compreensão simples de boa parte das pessoas. Da mesma forma que vocês conseguem entender que a Terra é redonda e a experimentam dessa forma. Pode-se chamar isso de um tipo de jnana yoga, usando termos hindus. Mas não acredito que pra fazermos essa descoberta seja necessário olhar pra nosso umbigo, ou gastar horas praticando Zazen – não que eu tenha algo contra isso, porque afinal de contas, sentar-se quieto pode ser uma atividade muito prazerosa, e é importante que tenhamos mais quietude. Mas acho quessa é essencialmente uma questão de compreensão intuitiva que vai nos pegar de surpresa, e subitamente você vai ver que isso é senso comum, e que o jeito como nos encaramos agora é uma ilusão. Sabe que Henry Emerson Foster escreveu um livro chamado “Como Ser uma Pessoa de Verdade”? Traduzido nos termos originais, isso significa “Como Ser uma Farsa Genuína”. Porque a pessoa é uma máscara, a persona usada por atores no teatro greco-romano. Eles usavam uma máscara que tinha uma peça em forma de megafone na boca, que projetava o som no teatro ao ar livre. Então a dramatis persona no início de uma peça é uma lista de máscaras, e a palavra “pessoa”, que significa “máscara”, passou a significar o seu eu verdadeiro. “Como ser uma Pessoa de Verdade”, imagina só.

Mas acho que nós vamos passar por tudo isso, e descobrir aquilo que simplesmente não deixamos nossos filhos perceberem, que não deixamos nós mesmos percebermos. Deixe-me enfatizar isso de novo. Nesse momento não é senso comum, não é plausível, por causa da nossa condição, mas podemos de uma maneira muito simples perceber que você não é algum tipo de acidente que surge por um tempo e aí some – mas sim que bem lá dentro, você é o que há e tudo o que há; você é eterno. Isso é você. Mas você não tem que lembrar disso o tempo todo, não tem que lembrar como bater seu coração. Você poderia morrer e esquecer tudo o que soube durante sua vida, porque não é preciso lembrar disso. Você vai brotar como outra pessoa mais tarde, assim como fez antes, sem saber quem era. É simples assim. Você nasceu uma vez, pode nascer de novo. Se já houve uma explosão cósmica que trouxe tudo à existência e vai desaparecer, se já aconteceu uma vez, pode acontecer de novo, e continuar…

É um tipo de sistema ondulante de vibrações. Tudo é um sistema de vibrações. Tudo é ligado/desligado. Agora você vê, agora não vê mais. A luz existe, mas acontece tão rápido que a retina não registra. Tudo no sol é como uma lâmpada, mas uma lâmpada muito rápida. Liga e desliga. O som faz isso; e o motivo pelo qual você não pode atravessar o chão com seu dedo é o mesmo pelo qual você não pode, sem ter problemas sérios, atravessar um ventilador com ele. O chão está vibrando muito rápido. Mais rápido até que um ventilador. O ventilador é lento o suficiente pra cortar seu dedo se você tentar atravessá-lo. Mas o chão vai tão rápido que você nem consegue entrar. Mas é só esse o motivo. Está entrando e saindo de existência numa velocidade incrível. Então tudo é ligado/desligado. Assim é sua vida. Você pode morrer, dizer “Bem, não sei pra onde estou indo, não sei de nada”. Assim como você não sabe o que acontece no seu sistema nervoso. Como o sistema nervoso se conecta, ou algo do tipo. Você não precisa saber, e se tivesse que descobrir, ficaria tão confuso com a informação que não saberia como operá-lo. Seriam coisas demais pra se pensar com uma consciência cuja atenção só se foca num ponto, que é um sistema de scanning, como um radar. Você não precisa saber como funciona pra usar. Esse é o verdadeiro sentido de onipotência.