11 de set de 2013

O Fora do Eixo sob o microscópio: uma visita à Casa FdE Minas

O artigo a seguir é de Iago Parsival e foi retirado do blog Rota 32


Capilé e Torturra no Roda Viva

Em uma das recentes polêmicas que se espalharam pelo Facebook, me convidaram pra visitar uma das casas FdE e conhecer com meus próprios olhos. O FdE já é objeto de discussão e crítica na esquerda há uns bons anos, embora tenha sido só agora - após um artigo do Reinaldo Azevedo na Veja e a gloriosa entrevista pelos dinossauros da mídia no Roda Viva - que o assunto realmente atingiu o escrutínio público.

Eu topei de bom grado o convite pra ir visitá-los. Sinto que o FdE me tange bastante pessoalmente, por uma miríade de razões. Em 2011, quando emergiram as primeiras polêmicas sobre o FdE quando do artigo crítico do Passa Palavra, foi à filosofia Deleuze e Guattari (filtrada através de seus discípulos Hardt e Negri) que defensores do FdE recorrerampara tentar defender a pertinência política de sua prática. Porém, como leitor de longa data desses autores, me é clara a contradição entre as frequentes exortações à prudência oriundas da dupla de filósofos, e o entusiasmo dos pró-FdE com o "novo", "digital", 2.0, como se novo significasse automaticamente "bom" ou "melhor". Se os inimigos da humanidade puderem, inventarão novas formas de dominação a cada dia... Algo já não cheirava bem aí.

O FdE clama ser um movimento social midialivrista, que é também uma rede de gestoras e produtoras de cultura, que busca também superar as velhas formas de ação política (consideradas 'rancorosas'). O que tão fazendo é de fato novo, senão em conteúdo, ao menos em forma; falta no meu vocabulário aquele conceito que possibilitaria amarrar tudo em uma única palavrinha.

Propõem a organização em rede, o afeto, a confiança, o compartilhamento de informações, o diálogo e a horizontalidade como soluções alternativas aos velhos modos de ação política. Olhando à distância, parece lindo, se pá um pouco "descolado" demais pra meus gostos anti-publicitários. Se eles tem uma formula de cooperativa e decisão horizontal que bem funciona, tenho todo o interesse do mundo em aprendê-la e mimetizá-la. Senão, é necessário denunciá-la pelo que realmente é.

Desde o início há razões pra suspeita; a ênfase de Pablo Capilé em números grandiosos e quantidades, que parecem esmagar qualquer possibilidade de crítica; a cobrança de que qualquer crítico 'faça uma proposta melhor' para ter sua crítica ouvida, isso assim de antemão sem que nem entendamos direito o que é o FdE; e, de forma geral, a aparente falta de vontade dos defensores de aproximar-se dos pontos específicos da crítica, preferindo ao invés disso disparar uma metralhadora de relatos saturados de sentimentalidade. Quando questionados quanto sua proposta 'revolucionária' se resumir à auto-organização dos gestores da cultura, respondiam enfatizando quão grandioso é colocar tantos jovens morando em comunidades, dividindo caixas coletivos e peças de roupa, tudo pela causa. (parece lindo, mas uma coisa não responde à outra). E que causa, mal me perguntem? Seriam duas: a "mídia livre", difícil de entender vinda de uma organização que depende tanto do mercado e do estado; e a causa da "cultura", o termo mais genérico possível - uma aula de introdução à antropologia já mostra que há mais de 20 acepções para esta palavra. Há um longo debate no século XX (partindo da escola de Frankfurt, batendo ponto no surrealismo e com os situacionistas) sobre a superação da arte como produzida no capitalismo, sobre o papel revolucionário da arte, sobre a diferença entre cultura e espetáculo. Tomando o objeto final - um festival como o Transborda - como exemplar do que a máquina FdE é capaz de produzir, eu sinto que ou bem todo esse debate foi ignorado, ou bem os produtos da rede FdE não são tão novos e revolucionários assim, sendo mais do bom e velho espetáculo. É só que dessa vez os gestores das leis de incentivos estão cooperando em rede, e que bom, mas não resolve nenhum problema a não ser o deles.



Bansky

Conforme outros relatos foram aparecendo o cenário se tornou mais complexo. O Passa Palavra publicou um texto em 2013 que indica que o FdE talvez não seja tão horizontal assim; o poder de decisão de cada pessoa dentro da rede é determinada por seu "lastro"; quanto maior sua dedicação à causa, quanto mais responsabilidades assumir, maior e mais importante o papel que executará lá dentro. Isso tem um nome, e é meritocracia. Não é um problema em si, mas reclassifica o FdE como estando em outra classe de criaturas, muito mais próximo de uma empresa verticalizada qualquer do que de uma efetiva autogestão. Porém, foi só com o depoimento da Laís Bellini que obtive uma visão nítida dos pequenos, flexíveis e intrusivos mecanismos de poder que amarram a rede. Recontextualizado pelorelato da Laís (que apesar de grande, vale a leitura!), o FdE acaba parecendo mesmo uma seita, ou pior - uma mistura pós-moderna de seita, empresa e partidão. Claro que engoli esse relato com uma pitada de sal. Agora que a direita e a grande mídia apontaram seus canhões de desinformação contra o FdE, não se pode acreditar em mais nada. Ainda assim, é difícil desconsiderar um relato com tal grau de detalhe e visível envolvimento emocional.


Pois bem, o FdE sem querer atravessou quase todas minhas áreas de interesse (à saber: horizontalidade, Deleuze, experimentação comunitária, redes, surrealismo, situacionistas e seitas abusivas), e com isso virou uma obsessão pessoal que durou uns dez dias, culminando na já mencionada visita à Casa FdE. Ao invés de (como muitos leitores de esquerda) rejeitar a sentimentalidade tanto das acusações quanto das réplicas (nas trocas de tiros virtuais), decidi tomar as afecções como meu ponto de partida. Tenho acreditado que no cara à cara, sob a luz da sinceridade e da verdade, as coisas revelam sua verdadeira aparência. Eu joguei limpo, portanto. Já tinha contade à autora do convite explicitamente que "xingo o FdE todo dia em minha timeline". Meu objetivo ali era entender a estrutura formal do FdE, 'desenhar o seu mapa' micropolítico. Eu tava morrendo de preguiça de discursinho pronto, tipo "O Fora do Eixo começou em Cuiabá" etc papo de marketing empresarial. Contei com minha sinceridade radical pra desestabilizar as fachadas. Queria ter acesso às contradições, às linhas de fissura moleculares. Sabia que não iria receber em troca sinceridade dos moradores da Casa FdE, bem porque conversamos todas juntas num mesmo cômodo - e quem seria a locca pra fazer confidências públicas e jogar seu "lastro" pelo ralo? Mas bastaria entender a estrutura formal e os discursos circundantes pra ver se, pelo menos, o tipo de pesadelo que a Laís Bellini denuncia realmente tem espaço pra se passar lá dentro.

E eu acho mesmo é que tem. Mas vamos precisar chegar com a lupa bem pertinho pra poder entender.

Eu sou um jornalista tão n00b que nem foto de lá eu tirei pra ilustrar o post.  (fonte: internets)

HORIZONTALIDADE, CONFIANÇA E LASTRO

Como as decisões são tomadas no Fora do Eixo? Colocando de forma simples, os gestores "relevantes" entram em contato uns com os outros. ("Gestores?", você pergunta. É, quase todo mundo lá dentro é gestor de algo ou alguém. Que gestão você pode pegar depende de seu lastro, mas mais sobre isso depois). Por exemplo, se quiserem mudar a identidade visual de um festival em Minas Gerais, a gestora de Poéticas Visuais da Casa FdE Belo Horizonte vai entrar em contato com os gestores nacionais que forem ligados ao festival, ao trabalho de Poéticas Visuais e também com os gestores estaduais, e tomarão uma decisão juntos e por consenso. O que me disseram é que todas as decisões do FdE são tomadas por consenso.Pra quem sabe quão difícil é obter consenso até mesmo em grupos pequenos e emocionalmente conectados, isso é bem surpreendente. É claro, se eles tentassem mobilizar as tantas milhares de pessoas para consensuar todas as decisões, o FdE decairia numa espécie de assembleísmo imanejável. Gastei então várias perguntas tentando entender os limites formais da autonomia de cada agente ali dentro, mas parece que esses limites não existem. Tudo é deixado numa relativa flexibilidade e bom senso. "Você tem de ter confiança", me disseram.

É claro que numa situação de autogestão, as decisões precisam sim ser descentralizadas, e a autonomia das partes é a vida e essência do coletivo. Agora, se vamos operar juntas, é imprescindível que haja clareza de até onde um pode ir e carregar consigo o nome de todas.

O que o FdE faz é substituir essa definição formal por uma exortação à CONFIANÇA. Agora, em meu dicionário, confiança é algo que se constrói na prática, de pessoa para pessoa, através da convivência. Diabos, convivo comigo mesmo des'que nasci, e nem mesmo em mim eu confio muito, dada a enorme capacidade humana pra auto-sabotagem! Quanto mais então confiar em milhares de pessoas que eu nem conheço, ao redor de todo o Brasil... Confiança cega se traduz para o mesmo tipo de 'fé' que muitas organizações "religiosas" pedem de seus fiéis. Aliás, em nada me surpreenderia se a confiança for usada como argumento, lá dentro, para calar os dissensos...! (aliás aquele papo de "pós-rancor" pode ser usado precisamente da mesma forma. Mas já estou especulando...)



Se você quiser participar das decisões, vai precisar acumular algum "lastro".

Como você faz isso? Bem, dando provas de sua dedicação, confiança e comprometimento. O que se traduz pra dedicar o máximo possível de seu tempo e sua vida à rede, colocar o máximo possível de seus bens na roda, etc. Ter algum lastro é essencial pra poder assumir papel de gestão. É por isso que o FdE se diferencia de movimentos propriamente horizontais (tipo "espaço liso"), onde todas consensuam juntas as decisões. O FdE se sai mal mesmo quando comparado a um esquema rígido e verticalizado como o centralismo democrático de um PSTU ou MST, que ao menos fornece direito de voto igual pra todo mundo; a rede funciona efetivamente como uma meritocracia, e sua medida de mérito é o "lastro".


Max Ernst - "The Hat Makes the Man"

O que confunde aqui é que o que eles tão chamando de "lastro" é uma mistura de duas coisas bastante diferentes.


A primeira delas é um processo orgânico, natural, de participação em um grupo. Exemplo: se alguém que mora aqui em casa passar um mês sem lavar louça nenhuma, e depois vier criticar a lavação de outrem, ou fizer propostas muito ambiciosas, essa pessoa vai ser questionada por sua hipocrisia, e é possível que suas propostas não desperte grande entusiasmo nas outras. É normal que hajam diferentes graus de confiança e de estima entre as pessoas que participam de um coletivo horizontal. Em algumas das instâncias do FdE, é a esse processo orgânico que é dado o nome de "lastro", que chamarei de lastro orgânico. É importante frisar que o lastro orgânico varia segundo a perspectiva de cada pessoa sobre cada outra, e numa situação de verdadeira horizontalidade o direito de uma pessoa participar das decisões JAMAIS deve ser atrelado ao tamanho de seu sacrifício pela causa.

Porém, outra coisa é o que acontece quando uma cúpula de gestores se reúne e avalia, de cima para baixo, qual o lastro de fulano ou ciclano. Exemplo: no FdE, existe uma instância chamada "PAN", "Ponto de Articulação Nacional", que assegura que as ações se coordenem a nível nacional. Se você quiser participar do PAN, terá de juntar muito lastro, até ser reconhecido pelas pessoas que já fazem parte do PAN. Elas se reunirão entre si e decidirão quais pessoas convidar para a cúpula, segundo o que avaliam ser o "lastro" de cada um. A este boi nomeei sobrecodificação de lastro: a avaliação, feita por uma elite de gestores, do grau de comprometimento de uma série de pessoas à uma instituição, estando essa série de pessoas de antemão "abaixo" da elite, ie., em instâncias menores de decisão. E a razão pela qual essas pessoas estão "abaixo" é porque elas tem menos "lastro", isso segundo a própria elite!

Ao nível do discurso, o lastro orgânico e a sobrecodificação de lastro se misturam, fazendo parecer que está tudo fluindo naturalmente. O que parece é que a rede flexível acolhe em seu bojo uma oligarquia das mais tradicionais, onde um clubinho fechado toma as principais decisões, e escolhem eles mesmos quem entra.



Aliás, horizontalidade é definido assim pelo Glossário FdE:

Horizontalidade: Visão não hierárquica de um grupo, que preza pela partilha da informação ao alcance de todos os seus integrantes. Transparência na publicização de ações. Distribuição de decisões e gestão compartilhada, fortalecendo o trabalho coletivo e ampliando o conhecimento mútuo e as metodologias de trabalho e tecnologias sociais.
A primeira e a segunda linha falam da mesma coisa: transparência. E transparência é um pré-requisito pra horizontalidade, mas não a coisa em si. Quanto à terceira linha, decisões podem ser distribuídas de forma perfeitamente vertical. A gestão pode ser compartilhada, mas só entre poucos; pode-se também dar a todos o cargo de gestor, sem com isso anular as hierarquias entre os cargos. Nesse contexto, as frases finais não querem dizer nada em específico. Ou seja, a horizontalidade do FdE não é mesmo horizontal, nem mesmo no discurso. Seria melhor que chamassem de "transparência" e parassem com essa palhaçada.

TRABALHO, LAZER E DESCANSO


depoimento da Laís Bellini conclui com um link para um vídeo sobre seitas abusivas e controle mental. Além dos vários paralelos com o FdE, me impressionou a informação de que as seitas abusivas costumam inibir o sono de seus membros, pra torná-los mais vulneráveis à manipulação. Perguntei então quanto tempo de sono cada pessoa dorme naquela casa: por volta de 6, 7 horas. Isso parece pouco pra mim, mas sei que tem gente que vive bem com esse tanto de sono. Será que há pressão ali para que não durmam demais? No mínimo, dormindo mais você deve conquistar menos "lastro". Aí perguntei quanto tempo de lazer cada um tira pra si. Colhi apenas risadas! O que me disseram foi mais ou menos o que a Lenissa Lenza (uma das fundadoras do FdE) postou em seu Face, que reproduzo aqui:
Pra gente ler um livro, assistir a um filme, bater papo, assistir um show, estudar, comer e etc, também fazem parte do "trabalho" e vice versa. A gente trabalha estudando, estuda trabalhando, se diverte estudando, estuda se divertindo, trabalha se divertindo, se diverte trabalhando. Tudo faz parte da mesma VIDA. Por isso o lema: trabalho é VIDA. E poderíamos dizer: Estudo é vida. Lazer é vida e assim por diante. Não se dissocia trabalho, lazer, estudo pro fora do eixo.
Se for isso mesmo, ótimo! Perguntei: "Mas não tem um limite que faz vocês colocarem uma pessoa pra fora da casa? Tipo, se alguém trabalhar apenas 3h, vocês topam ter essa pessoa como moradora?". Me responderam que "aí não, porque dá pra ver que essa pessoa tem outras prioridades".

Ah! Aí que tá. Então EXISTE uma diferença entre tempo produtivo e tempo improdutivo. Se você dissolver os limites que separam a vida do trabalho, de forma que tudo se torna "vida" - aí está um projeto que me interessa. Agora, você corre o risco de sumir com esses limites e conseguir apenas que toda sua vida seja trabalho. Dado quanto os moradores das Casas FdE trabalham (pelos relatos vai das 9, 10 da manhã até 3, 4 da madrugada), suspeito se tratar do segundo caso. Como se estabelece, politicamente, a diferença entre o tempo produtivo e o tempo improdutivo? Turns out que você tem de negociá-lo constantemente com o seu gestor. Isso sem dúvida abre espaço pro cenário de pesadelo descrito por Laís Bellini, onde todo o seu tempo está sendo sempre esquadrinhado e questionado por sua relevância pra causa. Sua casa é seu trabalho, não há para onde correr.


"Gravitation", M. C. Escher

Agora, é claro que pode ser mesmo que a coisa seja tocada de uma forma mais tranquila e permissiva. Todo mundo que conversei na casa me assegurou ter tempo pra namorar, ir pra baladas, livros, filmes, etc. O que me preocupou foi, acima de tudo, a recusa ou dificuldade de se PENSAR a diferença entre o tempo produtivo e o improdutivo. Há um discurso de que "aqui desconstruímos tudo", que não corresponde à realidade, e esse discurso pode estar lá acima de tudo para escamotear alguns mecanismos de poder.

CATAR E COOPTAR 

Perguntei, enfim, se tinham lido o relato da Laís Bellini. Todas leram. "O que acham?" - "Faltou confiança por parte dela", uma respondeu. "Ela não entendeu os processos, não entendeu como o FdE funciona". Não me satisfiz com as respostas: "Tá, muita coisa dá pra desconsiderar por ser subjetivo demais, mas tem certas coisas que ou são, ou não são." Por exemplo o lance que a Laís chama de 'Catar e Cooptar', nas palavras dela:
"(...) há reuniões que acontecem dentro da cúpula, as vezes com mais uns ou outros, que podem ser indicados para tal ação, para definir quem é a pessoa que tem mais perfil para dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede."
"Então, isso rola ou não rola?" - quis saber. Disseram que não. Uma menina argumentou: "Mas sabe, isso pode ser debatido... No jornalismo por exemplo há essa discussão, de quão ético é usar de sedução para obter um furo". Eu respondi: "Tá, se fosse um caso extremo, onde eu precisasse seduzir alguém pra impedir um genocídio, vá lá... Mas tirando esses extremos me parece bem eticamente condenável!" No que ela respondeu: "É importante notar que ninguém tá fazendo nada contra a vontade... É tudo consensual."

Eu repliquei: "Se você for ver as seitas abusivas clássicas, é tudo consensual também. E não deixa de ser abusivo."

O que eu acho estranho são as tentativas de defender a prática... Mesmo tendo acabado de negá-la. Depois fiquei sabendo que isso não é novidade, que esse tipo de uso político da sedução é/era normal nos partidões comunistas hierarquizados. Não tenho como provar nada, mas achei o encadeamento da conversa muito suspeito. Se for o caso mesmo de usarem o Catar & Cooptar - que PÉSSIMA forma de cimentar uma política calcada na confiança! E a que nível de perfídia as pessoas podem chegar, sob a exortação da entrega pela causa!

CONCLUSÃO

Há bem mais que eu poderia problematizar sobre o FdE, mas com isso sairia do escopo de minha visita presencial lá, e da proposta de uma avaliação mais estritamente micropolítica. Ao final de nossa conversa perguntei se tinha algo que queriam adicionar, ou alguma pergunta a me fazer. Me perguntaram o que eu pensava. Após um suspiro, danei a falar - e o que disse a eles foi parecido com o que disse aqui, claro que de uma forma menos digerida. Disse que nossa conversa dissipou algumas de minhas suspeitas, mas outras apenas se intensificaram. Eu disse a elas que não acreditava ser capaz de desvendar o verdadeiro funcionamento das coisas por lá num encontro de três horas, coisa que um membro fez questão de me repetir com um tom de raiva na voz - é duro quando você tem de concordar com alguém mesmo estando com raiva dessa pessoa. E a raiva veio (acho eu) porque, como fiz aqui, não me seguro ao dar o nome aos bois - chamo de poder onde vejo poder, chamo de horizontalidade onde vejo horizontalidade, etc.


Essa clareza não é secundária, não é implicância, não é picuinha. É essencial, porque uma gota de veneno é bastante pra estragar um prato de rango perfeitamente bom. Estamos há décadas buscando alternativas ao sistema que está aí posto, e isso não é uma tarefa trivial. Não tenho uma proposta super-novidade pra substituir o FdE (pelo contrário, minha pesquisa tem me levado cada vez mais à revisitar a antiguidade), e seria absurdo esperar que eu tivesse mesmo que ter uma proposta para poder criticá-los. O que tenho é apenas minhas experimentações, descobertas e desconfianças, as quais estou mais do que disposto a colocar pra crítica e discussão. E das desconfianças pretendo cuidar com muito carinho, pois é preciso prudência.